quarta-feira, 27 de julho de 2011

Lembranças

A casa antiga(27/07)

Depois de muito tempo sem visitar o bairro onde nasci, resolvi tirar um fim de semana para esta entediante viagem.
A serra apresentava as mesmas condições de sempre, alguns pontos perigosos continuavam sem sinalização e as vendedoras de bananas, queijo e artesanato continuavam no mesmo lugar como se fizessem parte da geografia local dando um toque ainda mais bucólico à paisagem.
As casas continuavam as mesmas, sem nenhuma grande mudança, todo aquele bairro até um pouquinho antes da casa de meus pais havia sido tombado pelo Patrimônio Histórico e apenas uma moradora vendera seu imóvel para uma empresa estrangeira que deixou o esqueleto da frente octagenária e logo depois uma moderna construção com Leds piscando de um lado para o outro.
Raul, Rodrigo e Rômulo - os três Érres do inferno - como eram conhecidos nas peladas dos finais de semana estavam juntos, talvez como sempre, mas muito diferentes. Estavam com Fillipo, um aposentado recém-chegado em uma mesa no Bar da Alegria Finita, do Porfírio; porque como o dono dizia- essa alegria tem hora para acabar, eu preciso dormir! - E os três agora ostentavam um figurino muito diferente da época.
Raul ganhara a pressão alta dos pais e tornara-se diabético, Rodrigo ficou viúvo, não desistiu e casou de novo e a mulher morreu de novo, dizem as más línguas que isso abalou sua saúde mental e Rômulo, um pouco antes de me mudar, havia sido contactado pelo Cruzeiro, só que em seu primeiro fim de semana em Minas sofreu um acidente de carro que custou-lhe a amputação de uma perna - e de esportes agora só queriam saber do jogo de tranca, a paixão de onze entre dez aposentados na região.
Perguntei-lhes sobre minha casa. Silenciaram, mas falaram que deveria ir vê-la. depois de um copo de café e um pão na chapa, entrei no carro e segui rumo à antiga casa de meus pais. para meu espanto era não mais uma casa e sim um mercadinho.
Estacionei o carro e senti como se estivesse fazendo uma viagem de volta, era tal qual o barulho da Brasília dos amigos de meus pais quando ele chegava da pescaria. Parei, olhei bem para o local tentando imaginar a cor lívida e as grandes janelas que faziam parte de um jardim onde cravos e rosas se miscigenavam com girassois e margaridas, entrei.
Na entrada onde havia um tapete de "Lar doce lar" estava pintado em letras garrafais num tom agressivo o logo da empresa, um pedaço da saudade de retornar à casa começava a me ser tirado.Continuei meu passeio tentando localizar a casa, onde seria a sala que minha mãe sentava comigo e meus irmãos para ler as histórias de Júlio Vernes e outros autores era um enorme salão onde anunciava-se bicicletas do último tipo que as crianças de minha época jamais pensaram existir e pelo gente com o preço de hoje também não poderão ter.
O velho ocorredor que ligava aos quartos e onde largávamos os brinquedos no afã da correria para pegar um bom lugar na sala de histórias era a parte dedicada às frutas e hortaliças, mas confesso não quis e não consegui ver o viço bom e brilhante como o pequeno pomar da frente da casa - que tinha virado o estacionamento. O quarto de Rachel com suas bonecas e o cheirinho peculiar de talco de bebê virou o açougue, numa ideia louca veio na minha cabeça imagens de bonecas com cabeças de vacas brincando e brigando umas com as outras. O de meu irmão Pedro, que era o mais fofo da família, por só saber de comer porcarias, virou a parte de produtos dietéticos, isso só poderia ser ironia com as minhas lembranças!
Resolvi caminhar um pouco mais, cheguei a uma parte de saldos e produtos em promoção cheia de pessoas ávidas pelas melhores oferas - era o quarto de minha mãe, onde provavelmente todos nós fomos gerados no mais puro amor , acalentados e depois onde choramos quando ela se partiu vítima da doença. Relembrei-me da cena e algo me deixava nervoso ao constatar todas as minhas memórias criando vidas em instantes e em instantes sendo destruídas por um pedaço de construção sem afeto e carinho, peguei o chiclete e fui para o caixa.
A imagem do caixa sentado empacotando os produtos do freguês que estava na minha frente lembrou-me do espaço de meu pai sentado à mesa e convocando os filhos para o jantar sem a participação da televisão, da mesma mesa que chorou ao ver partir todos os filhos para suas respectivas faculdades em outras cidades,a mesma mesa onde o socorremos ao chegarmos de surpresa para comemorar seu octagésimo aniversário e ele estava tentando um início de derrame e a mesma mesa que ele quis levar para o asilo onde passou os seus últimos dias...silêncio, a catarse precisava ser completada! Mais alguma coisa, senhor? perguntou o caixa, fiz que não com a cabeça e retornei ao carro.
Suspirei, olhei uma última vez para onde deveria estar a casa e os ossos do esqueleto desse fantasma chamado lembrança não moveu um único passo, ficando no mesmo local. Liguei o carro, pensando em Laura e nos carinhos de meus filhos que chegariam da colônia de férias em poucas horas.
(Inspirado livremente em Lobo Antunes)

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