Paulo era um sujeito pacato, sentava-se sempre no canto da sala na segunda fileira, os cabelos nunca se encontravam despenteados, pois sua mãe sempre cobrava dele estar bem alinhado, porém seus óculos fundo-de-garrafa deixavam-no fora de sintonia e menos amigável para a aproximação das meninas. Essas mesmas meninas que nunca notaram a ausência dele na hora do lanche, pois de família pobre, não poderia pensar em comprar salgados e refrigerantes - estava fadado a pão com mortadela ou uma fruta fonte de potássio a cada dia.
Paulo era um sujeito pacato, pela falta de amigos dedicou-se aos estudos, passou muito bem no vestibular, mas seu cabelo e seus óculos não haviam mudado e as meninas de seu curso, assim como a dos outros cursos, continuavam a não se interessar, restava como companheiro o pão com mortadela e a banana para poder aguentar a viagem de volta até o subúrbio em um trem lotado.
Paulo era um sujeito pacato, gostava de cinema e vídeo-jogos; os filmes eram de suspense onde jovens sempre estavam cercados por um assassino que sofrera algum tipo de trauma na infância. Os jogos eram sempre de guerra, onde Paulo poderia ser um heroi, um sobre-humano, completamente diferente da vidinha medíocre onde nem pensara uma única vez na vida em levantar a voz para reclamar algo que lhe era de direito, nos games era ele que tinha o poder de decisão, o poder supremo.
Paulo era um sujeito pacato, pacato até o dia que roubou um carro forte e dois dias depois instalou um mecanismo de controle remoto no mesmo e o estacionou quase de frente a uma igreja, era domingo e os fieis se encontravam louvando com fervor aos gritos, quando aos gritos se misturaram o barulho do corcel invadindo e levantando pelos ares duas dúzias de pessoas e ateando fogo em quase tudo.
Paulo, do alto do prédio em frente, ainda era um sujeito pacato, quando reparou que algumas pessoas conseguiam fugir pelos escombros, quando pegou seu rifle e apontou para a menina de cachos encaracolados que chorava ao procurar pela mãe. Paulo reconheceu naquele rosto angelical o mesmo rosto de Isabela, a menina que, numa única situação escolar, pedira uma ajuda na prova de Química, e que o jovem pacato negara. Isabela chamou a professora e o acusou de pedir a cola. Paulo que era um rapaz pacato ficou ainda mais pacato, pois com a vergonha de ser chamada na escola, sua mãe aplicara-lhe uma surra que fez soltar uma fera nada pacata.
Paulo, com um único tiro sela o destino daquele anjo, solta a arma ao chão, pega um pedaço de pão com mortadela, sobe no parapeito do terraço, abre os braços e de forma pacata solta aos ceus. Paulo era um sujeito pacato, inadequado com os seus e vítima de uma juventude pacata.
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